Ansiedade generalizada: quando a preocupação vira transtorno

Ansiedade é um mecanismo útil. Ela antecipa problemas, mobiliza o organismo e faz a pessoa estudar para a prova, revisar o contrato, chegar cedo ao aeroporto. O problema começa quando esse sistema passa a funcionar sem desligar, independentemente de haver ou não algo concreto para resolver.
O que caracteriza o transtorno
O transtorno de ansiedade generalizada se define por preocupação excessiva e difícil de controlar, presente na maior parte dos dias, por seis meses ou mais, sobre vários assuntos ao mesmo tempo: saúde, dinheiro, trabalho, filhos, o que os outros pensaram, o que pode dar errado amanhã.
O que pesa aqui é o controle. Em geral as preocupações são plausíveis; o que falha é a capacidade de interrompê-las, mesmo quando a própria pessoa reconhece que estão desproporcionais. Resolvido um assunto, a atenção migra imediatamente para o próximo.
Junto disso aparecem sintomas físicos que costumam ser o motivo real da primeira consulta, muitas vezes com um clínico e não com um psiquiatra: tensão muscular constante, sobretudo em pescoço, ombros e mandíbula, cansaço que não melhora com descanso, dificuldade de concentração e sensação de “dar branco”, irritabilidade, inquietação e sono ruim, tipicamente com demora para pegar no sono porque o pensamento não para.
Muitos pacientes só percebem o quanto viviam tensos depois que melhoram. Antes disso, descrevem o estado como parte da personalidade: “sempre fui assim, sou uma pessoa preocupada”.
O que costuma se confundir com isso
Antes de fechar o diagnóstico, algumas condições precisam ser afastadas, porque produzem quadro semelhante e têm tratamento próprio. Hipertireoidismo, arritmias, uso excessivo de cafeína ou de energéticos, efeito de certos medicamentos, abstinência de álcool e apneia do sono estão entre as mais comuns. Depressão entra na mesma lista: ansiedade intensa é uma das apresentações mais frequentes do quadro depressivo, e o tratamento muda conforme o que predomina.
Tratamento
Duas frentes, usadas isoladamente ou em conjunto.
A psicoterapia com abordagem estruturada, voltada a identificar e modificar os padrões de pensamento que alimentam o ciclo de preocupação, é a intervenção com melhor sustentação para o quadro. O trabalho envolve reduzir comportamentos que dão alívio momentâneo e mantêm o problema a longo prazo, como checagens repetidas, pedidos constantes de tranquilização e evitação de decisões.
No tratamento medicamentoso, os antidepressivos são a base, apesar do nome causar estranheza a quem não está deprimido: eles atuam sobre o sistema de ansiedade e são usados em esquema contínuo. O efeito leva algumas semanas para aparecer. Ansiolíticos da classe dos benzodiazepínicos têm uso pontual e por tempo limitado, porque perdem eficácia e produzem dependência quando usados de forma prolongada.
Exercício regular, sono organizado e redução de cafeína têm efeito mensurável sobre o nível basal de ansiedade. Não substituem o tratamento, e apresentá-los como solução isolada é um dos motivos pelos quais muita gente demora a procurar ajuda.
Quando procurar
Quando a preocupação ocupa a maior parte dos dias, não cede com informação ou tranquilização, atrapalha o sono, o trabalho ou as relações, ou vem acompanhada de sintomas físicos persistentes já investigados clinicamente sem achado. Não é preciso estar em crise para justificar uma consulta.
Dr. Alaor Faria Miguel — MÉDICO CRM-GO 20.125 · Psiquiatra RQE 17.633
Conteúdo de caráter educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento individualizado.