Esquizofrenia: o que é, como se manifesta e como se trata

Nenhum diagnóstico psiquiátrico carrega tanto peso quanto este. A palavra esquizofrenia evoca imagens construídas pelo cinema e pelo noticiário policial, e essas imagens atrapalham duas vezes: fazem a família demorar a procurar ajuda e fazem o paciente esconder o que está acontecendo.
Começo pelo que a esquizofrenia não é. Não é dupla personalidade, que é outro quadro e bastante raro. Não é deficiência intelectual. E não define uma pessoa perigosa: quem tem esquizofrenia é, estatisticamente, muito mais vítima de violência do que autor dela.
O que é
É um transtorno mental que afeta a forma de pensar, perceber a realidade, sentir e se comportar. O sintoma que a define é a psicose — a perda de contato com a realidade compartilhada —, mas o quadro é mais amplo do que isso.
Os sintomas costumam ser agrupados em três conjuntos.
Positivos, no sentido de acréscimos ao funcionamento normal: delírios, que são crenças firmes e não corrigíveis por argumento, frequentemente de perseguição ou de referência (a sensação de que a televisão, as pessoas na rua ou as mensagens falam sobre a pessoa); alucinações, em geral auditivas, com vozes que comentam, criticam ou ordenam; pensamento e fala desorganizados; comportamento desorganizado.
Negativos, no sentido de perdas: redução da expressividade facial e da entonação, empobrecimento da fala, queda da motivação e da iniciativa, perda de prazer, isolamento social progressivo. São menos visíveis do que os positivos e costumam ser os que mais comprometem a vida a longo prazo, além de serem frequentemente confundidos com preguiça ou depressão.
Cognitivos: dificuldade de atenção, de memória de trabalho e de planejamento, que interferem em estudo e trabalho.
Como começa
Raramente do dia para a noite. Na maior parte dos casos há uma fase inicial, meses a anos antes do primeiro surto, em que a pessoa se isola aos poucos, larga atividades, cai no rendimento escolar ou profissional, dorme mal, fica desconfiada e passa a ter interesses estranhos ao que era habitual. Como isso costuma acontecer no fim da adolescência ou no início da vida adulta, é comum atribuir tudo à idade, a uma fase ou ao uso de maconha.
O primeiro episódio psicótico é o momento em que delírios ou alucinações se tornam evidentes. É uma urgência, e não porque o risco imediato seja necessariamente alto: quanto mais tempo a pessoa passa em psicose sem tratamento, pior tende a ser a recuperação funcional posterior. Esse intervalo tem nome na literatura e é um dos fatores prognósticos mais estudados.
O que se sabe sobre as causas
Vulnerabilidade genética expressiva, sobre a qual atuam fatores ambientais: complicações na gestação e no parto, infecções, adversidade e trauma na infância, migração, ambiente urbano. O uso de cannabis na adolescência, sobretudo precoce, frequente e com produtos de alta potência, aumenta o risco em pessoas predispostas — é o fator evitável mais relevante e o menos discutido nas conversas familiares.
Tratamento
Os antipsicóticos são a base, e o objetivo do tratamento não termina no controle do surto: a manutenção existe para prevenir recaídas, e cada recaída tende a cobrar um preço em funcionamento.
A escolha do medicamento leva em conta o perfil de efeitos adversos, que precisa ser discutido abertamente, porque é o principal motivo de abandono. Existem formulações injetáveis de longa duração, aplicadas a cada algumas semanas, que resolvem boa parte do problema da irregularidade. E existe uma medicação específica indicada para os casos que não respondem a dois tratamentos adequados, cujo uso exige monitoramento laboratorial e costuma ser adiado por tempo demais.
Medicação sozinha não basta. Compõem o tratamento a psicoeducação da família, que reduz recaída de forma consistente, a terapia com foco no manejo dos sintomas e no enfrentamento, a reabilitação cognitiva e o apoio à reinserção no trabalho ou nos estudos. Some-se a isso o cuidado com a saúde física, que costuma ser negligenciado: pessoas com esquizofrenia têm expectativa de vida menor sobretudo por causas cardiovasculares e metabólicas, o que torna o acompanhamento clínico parte do tratamento psiquiátrico.
Para a família
Discutir com o delírio não funciona, e concordar com ele também não. O caminho intermediário é reconhecer o que a pessoa sente sem endossar o conteúdo: dá para dizer que se acredita que ela está com medo, sem afirmar que os vizinhos realmente a vigiam.
Sinais que pedem contato imediato com o serviço de saúde: ideias de morte, comportamento que coloca a pessoa ou outros em risco, recusa de alimentação, e piora rápida depois de interrupção da medicação.
O que muda o prognóstico é o diagnóstico precoce e o acompanhamento correto.
Dr. Alaor Faria Miguel — MÉDICO CRM-GO 20.125 · Psiquiatra RQE 17.633
Conteúdo de caráter educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento individualizado.