Insônia: o que é, por que se mantém e como tratar

Passar algumas noites mal dormidas depois de uma discussão, de uma viagem ou de um problema no trabalho é esperado. O sono se reorganiza quando a situação passa. A insônia como transtorno é outra história: ela continua depois que o motivo inicial desapareceu, e passa a se sustentar por conta própria.
O que caracteriza o transtorno de insônia
Dificuldade para iniciar o sono, para mantê-lo, ou despertar precoce sem conseguir voltar a dormir, ocorrendo pelo menos três noites por semana, por três meses ou mais, com prejuízo durante o dia — cansaço, irritabilidade, queda de rendimento, dificuldade de concentração.
O componente diurno é parte do diagnóstico. Quem dorme cinco horas e acorda bem não tem insônia; tem necessidade menor de sono. O problema se define pela consequência, não pelo número no relógio.
Por que ela se mantém sozinha
Compreender isso muda tudo no manejo: o que desencadeia a insônia raramente é o que a mantém.
Depois de algumas noites ruins, começam as tentativas de compensar: ir para a cama mais cedo para “garantir” o sono, ficar deitado tentando dormir, cochilar à tarde, dormir até mais tarde no fim de semana. Todas parecem razoáveis e todas pioram o quadro, porque diluem a pressão de sono ao longo de mais tempo na cama.
Em paralelo, a cama passa a ser associada a esforço e frustração em vez de sono. A pessoa cochila no sofá e desperta ao deitar. Some-se a isso a ansiedade antecipatória — olhar o relógio, calcular quantas horas ainda restam, temer o dia seguinte — e o ciclo se fecha.
O que precisa ser investigado antes
Insônia é sintoma antes de ser diagnóstico. Precisam ser avaliados quadros depressivos e ansiosos, apneia obstrutiva do sono (suspeita quando há ronco, pausas respiratórias observadas, sono não reparador e sonolência diurna), síndrome das pernas inquietas, dor crônica, refluxo, alterações hormonais, além do efeito de medicamentos, álcool, cafeína e nicotina.
Sobre o álcool, a crença popular é o oposto do efeito: ele encurta o tempo para adormecer e fragmenta a segunda metade da noite, produzindo sono superficial e despertares.
O tratamento de primeira linha não é comprimido
Para insônia crônica, a intervenção com melhor sustentação é a terapia cognitivo-comportamental para insônia. Ela combina técnicas específicas, e as duas mais efetivas soam contraintuitivas.
A restrição de tempo na cama reduz temporariamente as horas deitado, aproximando-as do tempo real de sono, para aumentar a pressão de sono e consolidá-lo. O controle de estímulos restabelece a associação entre cama e dormir: usar a cama apenas para dormir e para sexo, deitar apenas com sono, e levantar quando não conseguir dormir em vez de permanecer deitado rolando.
Somam-se a essas o trabalho sobre as crenças a respeito do sono, técnicas de relaxamento e a organização de horários, com destaque para manter horário fixo de despertar, inclusive nos fins de semana, que é o que ancora o ritmo circadiano.
A chamada higiene do sono — quarto escuro, sem telas, sem cafeína à noite — ajuda, mas isoladamente resolve pouco em insônia crônica. Ela é condição de base, não tratamento.
Medicamentos têm lugar, sobretudo em quadros agudos, em situações de crise ou associados a outra condição psiquiátrica que precise ser tratada. O uso prolongado de hipnóticos, em especial os benzodiazepínicos, traz tolerância, dependência e piora cognitiva, e por isso a indicação é criteriosa e acompanhada.
Quando procurar avaliação
Quando a insônia persiste por mais de três meses, quando há sonolência diurna importante, quando existe suspeita de apneia, quando o sono ruim vem junto de tristeza, ansiedade ou perda de interesse, ou quando o uso de medicação para dormir já se tornou rotina sem prazo para terminar.
Dr. Alaor Faria Miguel — MÉDICO CRM-GO 20.125 · Psiquiatra RQE 17.633
Conteúdo de caráter educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento individualizado.