Dor de cabeça: quando se preocupar

Cefaleia é o termo médico para dor de cabeça, e está entre as queixas mais frequentes em qualquer consultório. A maioria absoluta dos casos é de cefaleia primária: a dor é o próprio problema, não o sinal de outra doença. Ainda assim, algumas apresentações exigem avaliação rápida, e vale saber distingui-las.
Duas crenças antigas seguem circulando e não se sustentam: problema de visão e problema de fígado não são causas usuais de dor de cabeça.
Os tipos mais comuns
Cefaleia tensional. A mais frequente. Dor em aperto ou pressão, dos dois lados, muitas vezes descrita como uma faixa apertando a cabeça, com irradiação para nuca e ombros. Intensidade leve a moderada, sem piora com esforço, sem náusea importante. Aparece com mais frequência em períodos de estresse, tensão muscular, má postura, privação de sono, ansiedade ou depressão.
Migrânea (enxaqueca). Dor pulsátil, com frequência de um lado só, de intensidade moderada a forte, que piora com movimento e atrapalha as atividades. Costuma vir com náusea e incômodo importante com luz e som, o que leva a pessoa a procurar um lugar escuro e silencioso. Uma parte dos pacientes tem aura antes da dor: pontos luminosos, manchas no campo visual, formigamento em um lado do corpo ou dificuldade transitória para falar. Jejum, privação ou excesso de sono, período menstrual, estresse e determinados alimentos e bebidas podem funcionar como desencadeantes, e variam de pessoa para pessoa.
Cefaleia em salvas. A menos comum e a mais intensa. Dor estritamente de um lado, em volta ou atrás do olho, de início súbito, muito forte, com duração de minutos a poucas horas, acompanhada de olho vermelho e lacrimejante, pálpebra caída, nariz entupido ou escorrendo do mesmo lado. Ocorre em períodos concentrados, com crises repetidas ao longo do dia, com preferência pela madrugada, e deixa a pessoa agitada, sem conseguir ficar parada.
Sinais de alerta
Estas características indicam avaliação médica imediata, porque levantam suspeita de causa secundária:
Dor de cabeça de início explosivo, que atinge intensidade máxima em segundos. Dor acompanhada de febre e rigidez de nuca. Dor com alteração neurológica: fraqueza, alteração da fala, visão dupla, perda de equilíbrio, confusão, convulsão. Dor após traumatismo craniano. Dor que muda de padrão, piora progressivamente ao longo de semanas ou desperta a pessoa à noite. Primeira dor de cabeça importante após os 50 anos. Dor que piora com tosse, esforço ou mudança de posição. Dor em quem tem câncer, HIV ou imunossupressão, ou em gestantes e puérperas.
Um problema frequente e evitável
O uso repetido de analgésicos para dor de cabeça pode, com o tempo, produzir mais dor de cabeça. A cefaleia por uso excessivo de medicação se instala quando os analgésicos passam a ser tomados vários dias por semana de forma continuada, e cria um ciclo em que o remédio alivia por horas e a dor retorna. É uma das causas mais comuns de dor de cabeça diária, e o tratamento envolve suspender o padrão de uso sob orientação.
A relação com o sono, a ansiedade e o humor
Aqui há uma via de mão dupla que costuma ser subestimada. Insônia, ansiedade e depressão aumentam a frequência e a intensidade das crises de cefaleia tensional e de migrânea. Na direção oposta, dor de cabeça frequente prejudica o sono, reduz a tolerância ao estresse e deteriora o humor.
Clinicamente, isso significa que uma cefaleia que não melhora apesar do tratamento adequado às vezes tem, ao lado, um quadro de ansiedade, um transtorno depressivo ou um distúrbio do sono não tratados. Tratar apenas uma das pontas costuma explicar a sensação de estar sempre no mesmo lugar.
Quando procurar
Diante de qualquer sinal de alerta, imediatamente. Fora deles, quando as crises são frequentes, comprometem trabalho, estudos ou convívio, exigem analgésico com regularidade, ou vêm junto de sono ruim, ansiedade persistente ou desânimo prolongado. Existem tratamentos preventivos, feitos para reduzir a frequência das crises, e eles mudam bastante a rotina de quem convive com dor de cabeça recorrente.
A avaliação inicial pode ser feita pelo clínico geral ou pelo neurologista; o acompanhamento psiquiátrico entra quando o sono, a ansiedade ou o humor participam do quadro.
Dr. Alaor Faria Miguel — MÉDICO CRM-GO 20.125 · Psiquiatra RQE 17.633
Conteúdo de caráter educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento individualizado.