Pular para o conteúdo
Dr. Alaor MiguelMédico Psiquiatra

Blog · Mente e Cérebro

Por que os homens vivem menos: uma leitura de saúde mental

Atualizado: 08 de setembro de 2026 · 3 min de leitura · Por Dr. Alaor Miguel

Imagem de capa do artigo sobre expectativa de vida masculina

Os números do IBGE para 2024 mostram uma diferença que se repete há décadas: a expectativa de vida ao nascer no Brasil é de 76,6 anos na média, 73,3 anos para homens e 79,9 anos para mulheres. Seis anos e meio separam os dois grupos.

Parte dessa distância tem base biológica. Outra parte, que é a que interessa aqui, tem a ver com comportamento, cultura e acesso a cuidado — e essa parte é modificável.

O que compõe a diferença

Homens morrem mais, e mais cedo, por causas externas: acidentes de trânsito, homicídios, afogamentos, acidentes de trabalho. Morrem mais por doenças cardiovasculares em idades mais precoces. Fumam e bebem mais, e bebem em padrões mais nocivos. Consultam menos, fazem menos exames de rotina e chegam ao serviço de saúde em estágios mais avançados de doença.

E morrem consideravelmente mais por suicídio, em uma proporção que se mantém estável em praticamente todos os países com dados disponíveis. Isso ocorre apesar de mulheres apresentarem mais tentativas — diferença explicada em parte pelos métodos empregados e em parte por padrões de busca de ajuda.

O termo “mortes por desespero”, cunhado a partir de dados dos Estados Unidos, agrupa óbitos por suicídio, uso de álcool e overdose. Ele descreve bem um fenômeno concentrado em homens de meia-idade com perda de posição econômica e de vínculos, embora tenha sido formulado para um contexto específico e não deva ser transposto para o Brasil sem cautela. Serve para nomear a direção do problema, não para quantificá-lo por aqui.

Como a saúde mental entra na conta

Por dois caminhos.

O direto é o desfecho fatal: depressão não tratada, uso de álcool e outras substâncias, e o próprio suicídio.

O indireto é mais silencioso e provavelmente pesa mais no agregado. Depressão e ansiedade reduzem autocuidado, prejudicam adesão a tratamento, pioram sono e alimentação, aumentam consumo de álcool e tabaco, e estão associadas a pior evolução de doenças cardiovasculares e metabólicas. Um homem deprimido que também é hipertenso e diabético tende a cuidar mal das três coisas ao mesmo tempo.

Por que os homens demoram a procurar ajuda

Porque foram ensinados a não procurar. A construção social do masculino associa cuidado a fragilidade, dor a algo que se aguenta, e pedido de ajuda a fracasso. O resultado prático aparece na sala de espera de qualquer serviço de saúde, majoritariamente ocupada por mulheres.

Há ainda uma questão de reconhecimento. A depressão masculina frequentemente não se apresenta como tristeza e choro, e sim como irritabilidade, explosões, retraimento, mergulho no trabalho, aumento do consumo de álcool, comportamento de risco e queixas físicas. Como não se parece com a imagem corrente de depressão, nem o próprio homem nem quem convive com ele identifica o quadro. A queixa que chega ao consultório costuma ser insônia, cansaço, dor ou “estresse”.

O que muda esse cenário

No plano individual, tratar o que já existe: hipertensão, diabetes, colesterol, tabagismo, consumo de álcool, sono ruim, sintomas depressivos e ansiosos. Nenhuma novidade — o problema nunca foi falta de informação, e sim a distância entre saber e ir.

No plano coletivo, funcionam melhor as iniciativas que levam o cuidado até onde os homens já estão, em vez de esperar que eles apareçam: ações em local de trabalho, em clubes esportivos, em barbearias, em associações. Também ajuda uma mudança de linguagem: falar em desempenho, energia, sono e capacidade de trabalho alcança mais do que o vocabulário do autocuidado.

Para quem está lendo isto

Se você é homem, não faz exame de rotina há mais de um ano, dorme mal, bebe mais do que gostaria de admitir ou anda irritado a ponto de as pessoas em casa notarem, isso é motivo suficiente para uma consulta. Não é preciso ter um diagnóstico em mente para procurar um médico.

Se você convive com um homem nessa situação, o convite direto e concreto — marcar junto, ir junto — funciona melhor do que a recomendação genérica de que ele deveria se cuidar.

Se você está em sofrimento intenso, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188, gratuito, em todo o Brasil.


Dr. Alaor Faria Miguel — MÉDICO CRM-GO 20.125 · Psiquiatra RQE 17.633

Conteúdo de caráter educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento individualizado.