Quando a depressão é, na verdade, transtorno bipolar

Existe uma situação frequente no consultório: a pessoa chega com diagnóstico de depressão feito anos antes, já tentou três ou quatro antidepressivos, melhorou pouco, piorou em alguns, e chega convencida de que seu caso é resistente. Em parte dos casos, a história revela outra coisa. O quadro nunca foi depressão unipolar.
Por que a confusão acontece
Porque o transtorno bipolar costuma se apresentar pela depressão. Os episódios depressivos são mais numerosos e mais longos do que os de humor elevado ao longo da vida, e são eles que fazem a pessoa procurar ajuda. Ninguém marca consulta porque passou duas semanas produtivo, falante e dormindo pouco sem sentir falta.
É exatamente isso que faz a hipomania passar em branco. Ela raramente é vivida como sintoma. É lembrada como uma boa fase, um período de gás extra, uma época em que finalmente as coisas fluíram. Quando o médico não pergunta ativamente, e a família não é ouvida, esse dado não aparece.
O que define o transtorno bipolar
A presença, em algum momento da vida, de um episódio de mania ou hipomania. Só isso. Um período delimitado de humor elevado, expansivo ou irritável, acompanhado de aumento de energia e atividade, com redução da necessidade de sono (a pessoa dorme três horas e acorda disposta, não cansada), fala acelerada, pensamento saltando de assunto em assunto, autoestima inflada, distração e envolvimento em atividades com potencial de consequências ruins — gastos, decisões precipitadas, negócios impulsivos, exposição sexual de risco.
Na mania, o quadro é grave, dura pelo menos uma semana, prejudica claramente o funcionamento e pode incluir sintomas psicóticos. Na hipomania, é mais breve e mais leve, sem prejuízo marcante, o que explica por que passa despercebida por anos.
Sinais que levantam a suspeita
Nenhum deles fecha diagnóstico isoladamente, mas são os pontos que fazem um psiquiatra investigar a fundo a história de humor elevado:
Depressão que começa cedo, na adolescência ou no início da vida adulta. Episódios depressivos numerosos e recorrentes. História familiar de transtorno bipolar. Depressão com sono e apetite aumentados, em vez de reduzidos. Depressão com sintomas psicóticos. Piora, agitação ou irritabilidade importante logo após o início de um antidepressivo. Resposta que aparece rápido e some em seguida. Episódios depressivos no pós-parto.
Sobre as chamadas características atípicas da depressão — dormir demais, comer demais, sensação de peso nos membros, sensibilidade acentuada à rejeição, humor que melhora temporariamente diante de algo bom: elas são mais frequentes na depressão bipolar, mas não são exclusivas dela e não bastam para o diagnóstico. Funcionam como pista, não como prova.
Por que a distinção importa
Porque o tratamento é diferente. Na depressão unipolar, o antidepressivo é peça central. No transtorno bipolar, o eixo do tratamento são os estabilizadores do humor e determinados antipsicóticos, e o uso de antidepressivo isolado, sem essa base, pode desestabilizar o quadro, precipitar virada para mania ou acelerar a alternância entre os episódios.
Não é o caso de concluir que todo mundo que não melhorou com antidepressivo tem transtorno bipolar. Falta de resposta tem várias explicações: dose insuficiente, tempo insuficiente, diagnóstico correto mas condição associada não tratada, problema clínico de base, uso de álcool. A bipolaridade é uma das hipóteses, e é a que costuma ser esquecida.
O que fazer com essa informação
Se você tem diagnóstico de depressão e reconhece na sua história períodos de energia fora do comum, sono reduzido sem cansaço, gastos ou decisões impulsivas que hoje parecem estranhas, leve isso à consulta. Pergunte também a quem conviveu com você na época, porque quem está no episódio raramente é o melhor observador dele.
Reconstruir essa linha do tempo é o que muda a conduta.
Dr. Alaor Faria Miguel — MÉDICO CRM-GO 20.125 · Psiquiatra RQE 17.633
Conteúdo de caráter educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento individualizado.