Transtorno do pânico: o que é e o que fazer

Uma parcela expressiva das pessoas que chegam ao pronto-socorro convencidas de estar infartando está tendo um ataque de pânico. Fazem eletrocardiograma, exames de sangue, às vezes ficam em observação, e são liberadas com a informação de que “não é nada”. Do ponto de vista cardiológico, correto. Do ponto de vista da pessoa, que passou vinte minutos certa de que ia morrer, a explicação não fecha.
Como é um ataque de pânico
É um episódio de medo ou desconforto intenso que sobe rápido e atinge o auge em poucos minutos. Vem acompanhado de sintomas físicos marcantes: coração disparado, falta de ar ou sensação de sufocamento, dor ou aperto no peito, tremor, suor, calafrios ou ondas de calor, formigamento nas mãos e ao redor da boca, tontura, náusea.
Somam-se dois sintomas que costumam assustar mais do que os físicos: a sensação de irrealidade, como se a cena estivesse acontecendo com outra pessoa ou atrás de um vidro, e o medo de perder o controle, enlouquecer ou morrer.
A crise em si dura minutos, embora o mal-estar residual possa se estender por horas. Ela é intensamente desagradável e não é perigosa: o corpo está disparando uma resposta de alarme completa, com adrenalina, em ausência de ameaça real.
O que transforma ataques em transtorno
Ter um ataque de pânico isolado é relativamente comum e não configura doença. O transtorno se instala quando, além dos ataques recorrentes e inesperados, a pessoa passa a viver em função deles.
É aqui que o quadro se estrutura, e é justamente o que mais escapa. Instala-se o medo do próximo ataque e uma vigilância permanente sobre o próprio corpo, em que qualquer batimento diferente ou qualquer tontura vira sinal de alarme. Vem então a mudança de comportamento para evitar o risco: não dirigir na rodovia, não ir ao shopping, não entrar em elevador, não ficar sozinho em casa, sempre carregar o remédio no bolso, checar onde fica o hospital mais próximo.
Quando essa evitação cresce e a pessoa começa a deixar de frequentar lugares onde acredita que seria difícil escapar ou receber socorro, o quadro pode evoluir para agorafobia, e é aí que a vida encolhe de verdade.
Por que a investigação clínica ainda importa
Porque sintomas semelhantes podem vir de arritmias, hipertireoidismo, crises hipoglicêmicas, uso de estimulantes e abstinência de álcool ou de benzodiazepínicos. Uma avaliação inicial adequada afasta essas hipóteses. O que não faz sentido é repetir a mesma bateria de exames a cada crise: a repetição funciona como alívio momentâneo e reforça o ciclo do medo.
Tratamento
O transtorno do pânico é uma das condições psiquiátricas com melhor resposta ao tratamento.
A psicoterapia com abordagem cognitivo-comportamental é o padrão. O trabalho envolve entender o mecanismo da crise, corrigir a interpretação catastrófica das sensações corporais e, gradualmente, deixar de evitar as situações temidas. Uma parte do processo, chamada exposição interoceptiva, consiste em provocar deliberadamente as sensações que assustam — acelerar o coração, hiperventilar — em ambiente controlado, para que deixem de funcionar como gatilho.
O tratamento medicamentoso costuma se apoiar em antidepressivos, com início em dose baixa, porque quem tem pânico é particularmente sensível a qualquer sensação nova no corpo. Benzodiazepínicos podem ser usados por curto período, no início, e não como estratégia permanente: o alívio imediato que produzem tende a reforçar a crença de que a crise seria perigosa sem eles.
O que fazer durante uma crise
Reconhecer o que está acontecendo já reduz a intensidade. Não brigar com os sintomas, não tentar interrompê-los à força, respirar de forma lenta e prolongada na expiração, e esperar. A crise tem curva própria: sobe, atinge o pico e desce. Sair correndo do lugar alivia naquele momento e cobra caro depois, porque ensina ao cérebro que aquele lugar era mesmo perigoso.
Se as crises se repetem ou você já começou a evitar situações por causa delas, procure avaliação psiquiátrica. O quadro tende a se ampliar com o tempo, e responde bem quando tratado.
Dr. Alaor Faria Miguel — MÉDICO CRM-GO 20.125 · Psiquiatra RQE 17.633
Conteúdo de caráter educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento individualizado.