Remédio para dormir: quando ajuda e quais são os riscos

Remédio para dormir está entre as prescrições mais pedidas e entre as mais difíceis de interromper. No consultório, a pergunta costuma chegar de duas formas: “preciso de algo para dormir” ou “tomo há anos e não consigo parar”.
Explico aqui quando a medicação tem lugar, o que preocupa nos remédios mais usados e o que há de diferente nos mais recentes.
Antes do remédio
Na insônia crônica, o tratamento de primeira linha é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, e não um comprimido. Explico como ela funciona no texto sobre o que é a insônia e por que ela se mantém.
A medicação entra em situações específicas: insônia aguda ligada a um evento, fase em que o sono ruim está piorando todo o resto, ou insônia que acompanha outro quadro, como depressão ou ansiedade, que também precisa ser tratado.
Benzodiazepínicos
São os mais antigos do grupo e continuam entre os mais usados. Fazem dormir, mas o efeito tende a diminuir com o uso contínuo, e a dose que funcionava deixa de funcionar.
Com o tempo aparecem tolerância e dependência, e a suspensão brusca pode provocar insônia de rebote, ansiedade e, depois de uso prolongado, sintomas de abstinência mais sérios. Em pessoas mais velhas, aumentam o risco de quedas, fraturas e prejuízo de memória e atenção, e as diretrizes de prescrição para idosos recomendam evitá-los.
Zolpidem e similares
Zolpidem, zopiclona e eszopiclona agem no mesmo sistema cerebral dos benzodiazepínicos e compartilham parte dos riscos, inclusive tolerância e dependência.
Podem provocar comportamentos complexos durante o sono — levantar, comer, sair de casa ou até dirigir sem lembrar depois. Em 2019, a agência de medicamentos dos Estados Unidos passou a exigir alerta destacado na bula por esse motivo. No Brasil, desde agosto de 2024, todo medicamento com zolpidem, em qualquer concentração, exige Notificação de Receita B, a receita azul, decisão que a Anvisa justificou pelo aumento de relatos de uso irregular e de eventos adversos.
Outros remédios usados para dormir
Parte dos medicamentos usados para dormir não foi criada para isso: certos antidepressivos e antipsicóticos em dose baixa, e anti-histamínicos vendidos sem receita. Alguns têm lugar quando tratam também outro quadro presente. Usados só como sedativos, a evidência de benefício na insônia é fraca, e os efeitos colaterais continuam contando.
E a melatonina?
A melatonina é o hormônio que sinaliza ao organismo que é noite. Ela tem lugar em alterações do ritmo do sono, como o atraso de horário comum em adolescentes e o jet lag, mas na insônia crônica os estudos não mostram benefício relevante.
No Brasil, a Anvisa autorizou em 2021 a melatonina como suplemento alimentar para maiores de 19 anos, com consumo máximo de 0,21 mg por dia, sem aprovar nenhuma alegação de benefício. O suplemento, portanto, não é registrado como tratamento para insônia.
O lemborexante
O lemborexante pertence a uma classe diferente, a dos antagonistas dos receptores de orexina. Em vez de deprimir o sistema nervoso de forma geral, ele bloqueia a orexina, substância que mantém o estado de vigília.
Foi registrado pela Anvisa em abril de 2025 (Dayvigo) para o tratamento da insônia com dificuldade para iniciar ou manter o sono, e a fabricante prevê que chegue às farmácias entre o fim de 2026 e o início de 2027. Numa grande análise comparativa de 154 estudos com 30 medicamentos para insônia, publicada na revista The Lancet em 2022, ele ficou entre os que tiveram melhor perfil no tratamento prolongado, com a ressalva dos autores de que os dados de segurança ainda eram inconclusivos.
Há expectativa de menor risco de dependência do que com os hipnóticos tradicionais, mas essa é uma pergunta que só o uso em maior escala vai responder. Ainda assim, é medicamento controlado: exige Notificação de Receita B, retida na farmácia, deve ser tomado com pelo menos sete horas disponíveis para dormir e, como qualquer remédio para dormir, não dispensa a investigação do que está causando a insônia.
Como parar
Quem usa remédio para dormir há muito tempo não deve suspender por conta própria, de uma vez. A retirada é gradual, planejada com o médico, e costuma dar mais certo quando combinada com a terapia cognitivo-comportamental para insônia.
Descrevo como conduzo a avaliação e o tratamento na página sobre insônia.
Quando procurar avaliação
Vale procurar avaliação em qualquer uma destas situações:
- você usa remédio para dormir há mais tempo do que o previsto, ou precisou aumentar a dose;
- tentou parar e o sono piorou;
- teve episódios durante o sono de que não se lembra;
- a insônia persiste há mais de três meses, mesmo com medicação.
Se você está em sofrimento intenso, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188, gratuito, em todo o Brasil.